Personagens da Casa,

Conheça Daniel Toys

“Grafite é um grito da cidade”. Assim começa minha entrevista com o publicitário, artista e atualmente vivendo do grafiti, Daniel. Provavelmente você só o conhece como Toys. É ele quem estampa diversas carinhas pela cidade, além de letterings e desenhos compartilhados com seu sócio e amigo, Mikael Omik.

As carinhas se unem ainda à identidade de sua atual nomenclatura. Engana-se quem pensa que Daniel está nas ruas de Brasília há pouco: o jovem já soma 13 anos de carreira artística.

Tudo começou aos oito anos de idade, quando aprendeu a andar de skate e já saia durante a tarde desbravando a realidade urbana de sua Região Administrativa, Guará. Toys conta que sempre esteve pelas redondezas observando desde o picho até o conceito do grafite.

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“Nos skate parks tudo me chamava a atenção. Eram letras enormes que se atrelavam a desenhos. Nunca fui um bom aluno, minha letra era horrível mas aquilo despertou em mim uma curiosidade de criar também”, contou em entrevista ao BNM. Na mesma época, dedicava parte de sua infância desenvolvendo seu talento com desenho, e por aí foi criando gosto pela coisa.

Na escola, aos 11 anos, conheceu um grafiteiro e na mesma idade fez sua primeira arte em muro. “Foi um enorme desastre”, conta aos risos. Um desastre por que manusear o jet (spray) é completamente diferente de lidar com lápis de cor. “A parede tem outra estrutura, o respaldo do spray também. Tudo exige um cuidado e manuseio diferente”, explica.

Apesar do desastre de seu primeiro grafite – e da raiva do dono do muro – não desistiu. Persistiu na carreira de arte urbana. Antes, assinava como “D.M”, as iniciais de seu nome. Ao longo dos 13 anos como grafiteiro, Toys conta que desenvolveu sua personalidade, algo perceptível para reconhecimento dos espectadores.

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Formou-se em Publicidade e Propaganda, mas nunca imaginou que os caminhos o levariam para viajar em favor do grafiti. Eis que um emprego, após formado, o proporcionou a oportunidade de viajar para Argentina, Chile e Rio de Janeiro. Ali passou dois meses pintando muros e paredes pela América do Sul.

“Aquilo para mim era um sonho inimaginável. Mas foi ali também que comecei e me questionar porque em minha cidade o grafite era tão desvalorizado. Se lá fora dava certo, porque aqui não daria?”, disse. “A arte me proporcionou viagens e pessoas incríveis ao longo do caminho. Algo que talvez um emprego convencional não faria por mim. Quando você trabalha com arte, sua alma e seu espírito estão naquele ofício”, completa.

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Picho x Grafite

Para Daniel, o debate grafite versus pichação explica-se em duas vertentes: propósito e estética. “Eu como artista tenho o propósito de pintar e agregar. Às vezes a pichação vem para agredir, uma forma de protesto à sociedade”, explica. “Não é para te agradar. O picho não está nem aí se você gostou: ele vai lá e faz. Isso chama a atenção do sistema.”

Já a estética explica-se de maneira que beira o automatismo. “O grafite é algo mais elaborado, com mais cores, um estudo de traços e estética nos bastidores”, diz. Engana-se quem pensa que Toys volta seu trabalho para a elite: já respondeu um longo processo por ter pintado um monumento brasiliense sem autorização.

“O que é outra linha tênue. Eu, mesmo não entrando na categoria picho, respondo pelo mesmo tipo de crime. Tudo na verdade é uma questão de intenção”, completa.

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A moda, a elite e a consciência

Para ele tudo é referência. Sua arte ganhou roupas quando iniciou uma parceria com uma grande loja para a elite brasiliense. Antes disso, já produzia uma linha limitada de camisetas com seus personagens, “as cabecinhas”. “É também a questão de vestir a camisa, sabe? A forma de se vestir sempre fala muito sobre a pessoa. Quando alguém usa uma camiseta com um personagem meu, posso compreender até um pouco de sua personalidade. Além disto, fala sobre a linha de arte que a pessoa curte e afirma que admira meu trabalho”, disse extasiado.

Assim também, acabou caindo nas graças do público “classe A” do DF. Apartamentos de luxo, lanchas, mansões e até em eventos de arte exclusiva é possível encontrar a dupla Toys e Omik cumprindo trabalhos: certamente ganharam o conceito de arte.

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Para ele, estar em diferentes ambientes chama atenção e deixa o coração honrado. “O grafite te dá uma espécie de chave da cidade: você entra em vários locais. Desde a Cracolândia, onde somos sempre muito bem recebidos, até um apartamento de pé direito alto e arquitetura luxuosa. Sou respeitado por fazer minha arte”, diz.

“A realidade é que o grafite na periferia é mais aceito que na elite. A elite consome como uma forma de decoração. Ali, é uma forma estética. Lá fora não! Lá fora é um protesto social, uma forma de embelezar a cidade sem que ninguém ali precise desembolsar um alto valor.”

Tudo isso o deixa bastante confuso, mas quebra paradigmas conceituais. “Isso me chama muito a atenção, por que querendo ou não você vive uma escola de diferenças: são cabeças que enxergam o mundo de formas distintas.”

A maior de todas as lições para o artista, no entanto, foi a sensação de pertencimento e humildade por onde chega: é saber chegar no local com jeitinho e conquistar seu espaço. “A rua te proporciona momentos bons e ruins. É um ambiente inesperado, mas é lindo.”

“O meu trabalho evoluiu a um passo de cada vez. Simplesmente foi dando certo, algo que eu nunca esperava. Hoje em dia segue sendo um desafio enorme, mas uma coisa é certa: sempre estamos melhorando como pessoas, profissionais e artistas”, explica. “Desde que escolhi seguir meu sonho, não me arrependo nenhum dia.”

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EDITORA DE CONTEÚDO

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Toys

Ficou lindo!! Parwbens

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